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Quando os interesses partidários falam mais alto

O presente artigo tem como objetivo primário analisar o discurso do vereador Pedro Tourinho e, diante dos fatos, mostrar algumas evidências que respondam por si mesmas a quem o nobre parlamentar devota toda a sua fidelidade: seja ela a categoria profissional a que pertence – a saber, o referido parlamentar é médico com especialidade em Medicina Preventiva e Social – seja ela a população de Campinas, com efeito da representação democrática; ou ainda, seja ao partido, como um militante obediente e servil, acima de tudo.

Para responder a essa questão é importante dissecar a casca superficial do discurso fácil que todo e qualquer político apresenta na tentativa de arrancar aplausos e aprovação da platéia. Uma análise séria precisa enxergar além da epiderme da questão, tendo como norte da verdade os dados objetivos e não apenas aqueles que nominalmente a caracterizam. Assim, o texto reproduzido a seguir deve ser lido à luz deste espírito para escavar a fundo todos os aspectos que compõem o dado concreto.

A denúncia, tal qual anunciada por Pedro Tourinho, foi originalmente publicada no periódico do sindicato dos médicos de Campinas e região, SINDIMED edição impressa do trimestre Maio-Junho-Julho.

A crise da rede de saúde pública de Campinas vai além do sucateamento das unidades que esperam há anos por manutenção e da falta de profissionais que fazem o atendimento imediato da população, em especial os médicos. A assistência farmacêutica também tem deixado muito a desejar.

Historicamente, são comuns os casos de falta de alguns ou vários medicamentos na rede, prejudicando um grande número de pessoas que dependem dos produtos distribuídos nas farmácias públicas para realizar adequadamente o tratamento a que foram indicados.

Hoje, porém, o problema é outro. Em que pese recentemente a imprensa ter relatado que faltam alguns medicamentos de uso contínuo nas farmácias, a grande questão é a falta de profissionais para dispensar os remédios.

Desde meados [de] junho do ano passado denunciamos que os horários de funcionamento das farmácias públicas estavam reduzidos e algumas unidades totalmente fechadas. O motivo é a falta de farmacêuticos e técnicos de farmácia nas unidades da prefeitura. Desde que a entrega dos medicamentos passou a ser uma atribuição exclusiva destes profissionais e os trabalhadores de enfermagem ficaram impedidos de realizar esta função, o problema se agravou sem que as respostas necessárias fossem rápidas.

Em junho o problema já era visível, embora pudesse ser previsto bem antes. Mas somente em dezembro de 2013 a administração municipal deu o primeiro passo para melhorar a situação. Neste momento, 80% das farmácias da cidade funcionava em horário reduzido e outros 10% sequer abria para atendimento.

Em dezembro, foi finalmente anunciada a contratação de 50 profissionais técnicos de farmácia para suprir a necessidade. No entanto, o processo de contratação é bem mais lento que as necessidades da população. Sem contar que as 50 contratações são insuficientes para atender toda a demanda.

Em resposta a requerimento que fizemos questionando a necessidade de técnicos de farmácia e farmacêuticos em novembro de 2013 a necessidade era de contratar mais 73 farmacêuticos e 134 técnicos de farmácia, ou seja, 50 contratações não irá resolver o problema da assistência farmacêutica municipal.

Ainda hoje faltam profissionais e a população tem assistência farmacêutica em desacordo com a estrutura e funcionamento da rede pública.

Outro problema sério foi o fechamento da Farmácia Popular do Centro que funcionava na Rua Ferreira Penteado e atendia aproximadamente 12 mil por mês. O fechamento ocorreu devido à necessidade da Prefeitura entregar o prédio onde funcionava. Em mais de um ano, a Prefeitura foi incapaz de locar um imóvel. Fechada desde novembro do ano passado, ainda hoje aguarda um novo espaço, enquanto a população precisa ir ao Guanabara, onde funciona a unidade dois.

Estes problemas afetam de maneira muito preocupante a saúde da população, principalmente aquela que é dependente do SUS. Sem medicação adequada, fornecida no tempo certo, agravam-se os problemas, prejudicando a qualidade de vida [d]os moradores de Campinas e tornando mais difícil e caro o tratamento.

Resolver os problemas das farmácias públicas é uma necessidade estrutural na garantia do direito à saúde, do acesso ao tratamento para as mais variadas doenças e na organização da rede pública.

Pedro Tourinho é médico da rede pública de saúde em Campinas e vereador pelo PT

Um leitor desatento talvez não notasse nenhuma contradição explícita no texto publicado no informativo da categoria. Tampouco questionaria a integridade do denunciante, visto que estas linhas expressam o zelo característico de um profissional da área da saúde para com o usuário do sistema. Mais ainda, ao ter a denúncia veiculada pelo sindicato dos médicos a questão estaria legitimada pela própria categoria, fazendo do denunciante o porta-voz da insatisfação coletiva.

Mas a questão em si não pode ser interpretada nesta clave, ainda que a denúncia, em si, proceda. A compreensão do que está em jogo depende fundamentalmente de associar tal denúncia aos demais atos do vereador Pedro Tourinho, enquanto homem público e representante eleito pelo povo. Só assim este ato da denúncia – que é nobre em si mesmo – pode adotar uma conotação valorativa.

A todos aqueles que desconhecem a atuação do vereador Pedro Tourinho, apresento, a seguir, um breve resumo de seus feitos.

Durante o biênio 2013-2014, Pedro Tourinho exerce o cargo de membro da Comissão de Política Social e Saúde. Com efeito, desde 14 de Fevereiro de 2013 ele compõe a comissão de Saúde de forma ativa. Assim, não pode-se afirmar que este seja qualquer vereador.

Além das atribuições típicas de um vereador – fiscalizar o Poder Executivo e legislar sob temas de interesse popular – Pedro Tourinho foi eleito como um médico, alguém que conhece a estrutura e funcionamento da rede pública de saúde desde dentro, o que coloca-o em posição de maior responsabilidade como membro da comissão de Saúde.

Este fato, por si só, já seria o suficiente para classificar a sua denúncia como uma peça de difamação fraudulenta, direcionada única e exclusivamente a minar a credibilidade do prefeito em exercício. Explico: o vereador Pedro Tourinho não é um cidadão comum, sem os meios de ação do aparato público necessários para pautar a denúncia como uma negligência administrativa. Muito pelo contrário, ao tentar imputar tal aura à sua denúncia o vereador tenta dissimular que ele mesmo não é um agente político e, portanto, co-responsável pelo estado de coisas que este denuncia.

Ao levar a cabo a denúncia Pedro Tourinho coloca-se fora do cenário político e mais próximo da população, a quem ele estaria representando. Ao veicular tal denúncia no jornal do sindicato médico o mesmo pretende cooptá-los diante de um problema que atinge toda a categoria. No entanto, é uma contradição tentar exercer este papel duplo: ora ele é um membro do corpo eletivo que fiscaliza o sistema de saúde e garante o seu bom funcionamento ora ele é um membro da sociedade civil que, nada tendo a ver com os desmandos da administração pública, denuncia a ineficiência do Estado.

Mesmo o argumento de que o vereador Pedro Tourinho engrossa a base oposicionista ao governo municipal e que, por isso, a ele seria concedido o benefício de ser um denunciante ao mesmo tempo em que é parte da comissão de saúde não é valido visto que o seu contracheque é pago com dinheiro público e, deste modo, ele deve satisfações como alguém que foi eleito para tentar negociar, da melhor forma possível, os problemas inerentes da cidade, independentemente de divergências partidárias que, a priori, deveriam ficar de lado.

Nem tudo, porém, resume-se ao papel duplo do vereador Pedro Tourinho. Ele não somente traiu a sua categoria profissional como também presta um desserviço a população que ele professa defender.

Ao votar pela aprovação da contrapartida do município no programa federal Mais Médicos o vereador Pedro Tourinho consentiu em submeter a população de Campinas à prática médica de origem duvidosa. Como nenhum médico do programa precisou fazer o exame de revalidação do diploma o paciente que é atendido por um profissional do Mais Médicos sequer tem certeza se este é mesmo médico ou não.

É assim que o partido do vereador Pedro Tourinho entende que o usuário do Sistema Único de Saúde deve ser atendido: com a medicina mais ordinária possível. Os casos de erros médicos deste programa são tão grosseiros que até uma página no site Tumblr (ver http://maismedicos.tumblr.com/) foi criada para divulgar os absurdos destes profissionais.

Na prática, o programa Mais Médicos cria duas categorias de medicina: uma para o povo e outra para a alta cúpula do partido. Basta observar que quando Lula, Dilma e companhia ficam doentes todos eles, sem exceção, recorrem aos cuidados do renomado hospital Sírio-libanês e não à unidade básica de saúde aonde atende um membro do Mais Médicos.

Mas isso não é tudo. Um outro problema – este de ordem moral – foi gerado ao trazer o programa Mais Médicos para Campinas. A notícia de que médicas cubanas que teriam engravidado e, assim, estariam sendo obrigadas a voltar para Cuba ou então realizar o aborto como condição de permanência no programa coloca toda a questão sob outra perspectiva. Aborto no Brasil é crime e, salvo em casos extremos, a própria ética médica não autoriza tal prática.

Não ouviu-se uma única palavra de pesar do vereador Pedro Tourinho com relação a qualquer aspecto do programa Mais Médicos, mas ele usa do tom de denúncia para alarmar a população contra a situação das Farmácias Populares em uma formidável inversão do senso das proporções. É tamanho o cinismo do vereador Pedro Tourinho que para ele é pior faltar remédio do que chancelar o aborto!

Sua apatia diante dos problemas inerentes do programa Mais Médicos permite-nos inferir o apreço que o nobre vereador tem pela vida. E isso vindo de um profissional que deveria zelar pelo bem estar alheio, seja na condição de médico seja na de vereador.

Diante do exposto fica evidente que na escala de prioridades do vereador Pedro Tourinho a agenda partidária fica em primeiro plano.

A categoria médica, por sua vez, aparece em segundo plano, mas bem depois, apenas como massa de manobra. Dentre o repertório de dissimulações ora o discurso adotado é o de uma certa representatividade de classe – para assim tentar angariar uma base de apoio dentre os seus – ora reforça o sentimento de dualismo População versus Médicos acusando os últimos de corporativismo, por não aceitarem de bom grado a presença dos profissionais do programa Mais Médicos.

Por último, sem gozar de qualquer atenção do nobre vereador, resta a população, entregue a própria sorte, tendo que recorrer à médicos de habilidade técnica limitada e conhecimento acadêmico abaixo do nível necessário para ser aprovado no exame de revalidação.

Alguém que em todas as relações tenta obter vantagem para si ou para o partido não merece ser representante de povo nenhum. É fundamental que todos os projetos apresentados pelo vereador Pedro Tourinho sejam analisados com o mesmo criticismo de quem lida com um mentiroso compulsivo.

É debaixo da fala mansa, da aparência de inocuidade e da articulação de idéias de boas intenções que as medidas mais nefastas vão sendo implementadas nas raízes de nossa sociedade. Ou desmascaramos toda a farsa daqueles que pretendem tomar o país de assalto ou seremos eternos vassalos dessa gente.

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5 comments on “Quando os interesses partidários falam mais alto

  1. […] escrevi aqui sobre a fidelidade do vereador-militante Pedro Tourinho à agenda partidária e sobre a mentira como método para minar a credibilidade do Poder Executivo. Parece que é essa […]

  2. […] A verdadeira face de Pedro Tourinho é dissecada minuciosamente no artigo Quando os interesses partidários falam mais alto. O artigo expõe com clareza como suas ações são orientadas para favorecer a agenda do partido […]

  3. […] É imperativo frisar que ainda que essas discussões se deem na esfera federal nada acontece no país que não tenha como caixa de ressonância a política local. Todos os partidos, sem exceção, fomentam localmente as diretrizes do diretório nacional. Aquilo que vem como uma determinação dos caciques partidários retorna em coro emulando ares de legitimidade, respaldado no suposto apoio da população local. Que este apoio popular local efetivamente exista já é outra história, mas nossos vereadores sempre irão colocar as ideias da alta cúpula do poder em circulação, em uma demonstração de servilismo e obediência ao partido. […]

  4. […] cinismo e a cara de pau são a marca do vereador-militante Pedro […]

  5. […] É imperativo frisar que ainda que essas discussões se deem na esfera federal nada acontece no país que não tenha como caixa de ressonância a política local. Todos os partidos, sem exceção, fomentam localmente as diretrizes do diretório nacional. Aquilo que vem como uma determinação dos caciques partidários retorna em coro emulando ares de legitimidade, respaldado no suposto apoio da população local. Que este apoio popular local efetivamente exista já é outra história, mas nossos vereadores sempre irão colocar as ideias da alta cúpula do poder em circulação, em uma demonstração de servilismo e obediência ao partido. […]

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