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Rachel Sheherazade

Recentemente o comentário da jornalista Rachel Sheherazade do SBT ganhou projeção nacional quando esta lançou a campanha “Adote um Bandido”.  O episódio foi motivo de celeuma chegando ao ponto até da Comissão de Ética e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro emitirem uma nota de repúdio. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) foi além ao protocolar representação no Ministério Público contra a emissora e a jornalista.

Por aqui o incidente não passou em branco. O vereador Pedro Tourinho apresentou a moção MOC 22/2014 – Moção que protesta contra a manifestação da jornalista Rachel Sheherazade, no telejornal SBT Brasil a respeito dos atos de violência realizados contra adolescente no Rio de Janeiro na noite de 31 de janeiro de 2014.

No texto da moção Pedro Tourinho alega que “a jornalista Rachel Sheherazade […] manifestou-se em cadeia nacional favoravelmente a ação perpetrada contra o adolescente. Segundo a jornalista ‘a atitude dos “vingadores” é até compreensível’ e o ato perpetrado seria ‘legítima defesa coletiva’“.

Alguém que estivesse agindo de má fé e que fosse mal-intencionado analisaria a frase supracitada fora de seu contexto original, dando ênfase aos pontos polêmicos. Isso foi justamente o que o vereador Pedro Tourinho fez.

Para que não paire dúvidas, eis aqui o comentário da jornalista Rachel Sheherazade na íntegra:

O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que em vez de prestar queixa contra seus agressores, ele preferiu fugir, antes que ele mesmo acabasse preso. É que a ficha do sujeito está mais suja do que pau de galinheiro.

Num país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos “vingadores” é até compreensível.

O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O quê que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, é claro!

O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite.

E aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: “Façam um favor ao Brasil. Adote um bandido!”

Se houvesse um mínimo de honestidade intelectual o vereador Pedro Tourinho teria que admitir que a Rachel Sheherazade julgou “compreensível” (e não favorável) a atitude dos vingadores quando: a) o país apresenta índices de 26 assassinatos por 100 mil habitantes; b) 80% de inquéritos de homicídio são arquivados; c) o país sofre de violência endêmica.

A baixeza na distorção das palavras não pára aqui. Ao alegar que a jornalista qualificava o caso como “legítima defesa coletiva” o vereador Pedro Tourinho propositadamente não informa que tal ato seria um contra-ataque aos bandidos e “de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite”.

Em defesa deste segundo argumento nada mais atual do que o caso do Ministério Público do Trabalho que esta semana determinou que o dono de um posto de gasolina em Jaguariúna, Região Metropolitana de Campinas, pague uma indenização ao filho do frentista morto no assalto. Uma completa inversão de valores uma vez que segurança pública é um assunto de Estado!

Em uma semana quem detém o monopólio da violência é o Estado e não cabe aos cidadãos de bem conter a violência (vide o caso Sheherazade). Na semana seguinte “a segurança pública não é obrigação exclusiva do Estado, mas sim, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos”.

Mais uma vez o que vemos é o Estado criminalizando aqueles que geram emprego e riqueza para o país ao mesmo tempo em que se omite de suas responsabilidades.

O festival de constrangimento não cessa. Para arrematar, o vereador Pedro Tourinho ainda defende que a jornalista “se mostrou irresponsável e até mesmo perigosa, podendo estimular atos semelhantes em outras situações”.  Curiosamente, não houve uma única palavra do distinto vereador contra o episódio de incitação ao crime contra… a própria Sheherazade! Para aqueles que não acompanharam o caso, em Dezembro do ano passado o filósofo Paulo Ghiraldelli publicou em sua conta no Twitter sua mensagem de ano novo: “MEUS VOTOS PARA 2014: que a Rachel Sherazedo (SIC) seja estuprada”.

Mais detalhes sobre esse caso podem ser conferidos no blog do Felipe Moura Brasil.

Diante dos fatos fica claro o posicionamento do vereador Pedro Tourinho e o papel que este quer fazer cumprir: a criminalização da opinião diversa.

A seguir selecionei dois artigos em que a própria Rachel Sheherazade relata o ocorrido sobre o seu ponto de vista.

Artigo originalmente publicado na Folha de São Paulo.

Rachel Sheherazade: Ordem ou barbárie?

11/02/2014  03h00

O fenômeno da violência é tão antigo quanto o ser humano. Desde sua criação (ou surgimento, dependendo do ponto de vista), o homem sempre esteve dividido entre razão e instinto, paz e guerra, bem e mal.

Há quem tente explicar a violência, a opção pela criminalidade, como consequência da pobreza, da falta de oportunidades: o homem fruto de seu meio. Sem poder fazer as próprias escolhas, destituído de livre-arbítrio, o indivíduo seria condenado por sua origem humilde à condição de bandido. Mas acaso a virtude é monopólio de ricos e remediados? Creio que não.

Na propaganda institucional, a pobreza no Brasil diminuiu, o poder de compra está em alta, o desemprego praticamente desapareceu… Mas, se a violência tem relação direta com a pobreza, como explicar que a criminalidade tenha crescido em igual ou maior proporção que a renda do brasileiro? Criminalidade e pobreza não andam necessariamente de mãos dadas.

Na semana passada, a violência (ou a falta de segurança) voltou ao centro dos debates. O flagrante de um jovem criminoso nu, preso a um poste por um grupo de justiceiros deu início a um turbilhão de comentários polêmicos. Em meu espaço de opinião no jornal “SBT Brasil”, afirmei compreender (e não aceitar, que fique bem claro!) a atitude desesperada dos justiceiros do Rio.

Embora não respalde a violência, a legislação brasileira autoriza qualquer cidadão a prender outro em flagrante delito. Trata-se do artigo 301 do Código de Processo Penal. Além disso, o Direito ratifica a legítima defesa no artigo 23 do Código Penal.

Não é de hoje que o cidadão se sente desassistido pelo Estado e vulnerável à ação de bandidos. Sobra dinheiro para Cuba, para a Copa, mas faltam recursos para a saúde, a educação e, principalmente, para a segurança. Nos últimos anos, disparou o número de homicídios, roubos, sequestros, estupros… Estamos entre os 20 países mais violentos do planeta. E, apesar das estatísticas, em matéria de ações de segurança pública, estamos praticamente inertes e, pior: na contramão do bom senso!

Depois de desarmar os cidadãos (contrariando o plebiscito do desarmamento) e deixá-los à mercê dos criminosos, a nova estratégia do governo, por meio do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, é neutralizar a polícia, abolindo os autos de resistência.

Na prática, o policial terá que responder criminalmente por toda morte ocorrida em confronto com bandidos. Em outras palavras, é desestimular qualquer reação contra o crime. Ou será que a polícia ousará enfrentar o poder de fogo do PCC (Primeiro Comando da Capital) ou do CV (Comando Vermelho) munida apenas de apitos e cassetetes?

Outra aliada da violência nossa de cada dia é a legislação penal: filha do “coitadismo” e mãe permissiva para toda sorte de criminosos. Presos em flagrante ou criminosos confessos saem da delegacia pela porta da frente e respondem em liberdade até a última instância.

No Brasil de valores esquizofrênicos, pode-se matar um cidadão e sair impune. Mas a lei não perdoa quem destrói um ninho de papagaio. É cadeia na certa!

O ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o Estatuto da Impunidade, está sempre a serviço do menor infrator, que também encontra guarida nas asas dos direitos humanos e suas legiões de ONGs piedosas. No Brasil às avessas, o bandido é sempre vítima da sociedade. E nós não passamos de cruéis algozes desses infelizes.

Quando falta sensatez ao Estado é que ganham força outros paradoxos. Como jovens acuados pela violência que tomam para si o papel da polícia e o dever da Justiça. Um péssimo sinal de descontrole social. É na ausência de ordem que a barbárie se torna lei.

RACHEL SHEHERAZADE, 40, jornalista pela Universidade Federal da Paraíba, é âncora do telejornal “SBT Brasil”

Trecho da entrevista concedida à Forbes em 10 de fevereiro de 2014

Forbes: O escândalo do mensalão é largamente aceito por alguns membros do PT como algo “para um bem maior”. Qual é a diferença entre considerar esse crime “aceitável” e o crime cometido contra o adolescente como “não aceitável”?

Rachel Seherazade: Entenda que existem muitas pessoas boas no PT, assim como em qualquer outro partido. Mas também há muitos esquerdistas no partido inclinados a justificar qualquer coisa, até mesmo um crime, para se manter no poder. Foi o que aconteceu no mensalão. Eles dizem que isso tudo é sobre perseguição política, o que de fato nunca existiu. Também é desrespeitoso com o sistema judicial brasileiro. Assim como no caso do menino, que terminou sendo um escape tolo para discursos duvidosos e para políticos oportunistas, que usaram o ocorrido para falsamente defender os direitos humanos. Eu gostaria que essas pessoas e o governo se sentissem da mesmo forma sobre as pessoas que agem para trazer segurança à sociedade e se tornam vítimas do banditismo que tomou conta do Brasil.

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8 comments on “Rachel Sheherazade

  1. […] Tourinho entendeu que a declaração de Rachel Sheherazade era um convite à violência e assim apresentou uma moção de repúdio na Câmara Municipal de Campinas. Seguindo a mesma lógica, espera-se que o vereador Pedro Tourinho mantenha a coerência e repudie […]

  2. […] do PT, entendeu que a declaração de Rachel Sheherazade era um convite à violência e assim apresentou uma moção de repúdio na Câmara Municipal de Campinas. Seguindo a mesma lógica, esperava-se que o vereador-militante Pedro Tourinho mantivesse a […]

  3. […] semelhante passou Rachel Sheherazade ao dizer que “é compreensível que o cidadão se defenda quando o Estado é omisso e a […]

  4. […] à última alegação de Aranha observa-se o mesmo expediente utilizado contra Rachel Sheherazade quando esta última disse que “é compreensível que o cidadão se defenda quando o Estado é […]

  5. […] Mais ainda, quando o filósofo Paulo Ghiraldelli defendeu “MEUS VOTOS PARA 2014: que a Rachel Sherazedo [SIC] seja estuprada” não houve qualquer movimento de repúdio vindo de Pedro Tourinho. Muito pelo contrário, ele ainda apresentou uma moção acusando-a de incitar a violência! Essa excrescência política foi dissecada aqui. […]

  6. […] semelhante passou Rachel Sheherazade ao dizer que “é compreensível que o cidadão se defenda quando o Estado é omisso e a […]

  7. […] à última alegação de Aranha observa-se o mesmo expediente utilizado contra Rachel Sheherazade quando esta última disse que “é compreensível que o cidadão se defenda quando o Estado é […]

  8. […] Mais ainda, quando o filósofo Paulo Ghiraldelli defendeu “MEUS VOTOS PARA 2014: que a Rachel Sherazedo [SIC] seja estuprada” não houve qualquer movimento de repúdio vindo de Pedro Tourinho. Muito pelo contrário, ele ainda apresentou uma moção acusando-a de incitar a violência! Essa excrescência política foi dissecada aqui. […]

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