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Rebelião contra mentiras

Artigo originalmente publicado no site Ludwig von Mises Brasil

por Antony Mueller, terça-feira, 25 de junho de 2013

191577-manifestacao-em-florianopolis.jpgO que está por trás das rebeliões que estamos testemunhando ao longo de todo o Brasil? Embora várias hipóteses já tenham sido aventadas, creio que, no fundo, estamos vivenciando uma rebelião contra mentiras.  Trata-se de uma rebelião dos jovens contra as mentiras que “aprenderam” em suas escolas, nas universidades e nos meios de comunicação de massa, principalmente na televisão. Embora a juventude provavelmente possua mais instinto do que sabedoria, é fato que ela instintivamente está consciente de que está sendo enganada por aqueles que estão no poder.  Ela não se sente enganada apenas pelo Poder Executivo, mas também pelo Poder Judiciário e pelo Legislativo.  Mais ainda: se sente enganada pelos partidos políticos e, é claro, pelos próprios políticosSistema parasítico

O sistema político brasileiro é uma gigantesca teia de mentiras e de roubo, e consiste em uma elaborada fraude sistêmica que foi criada para servir aos donos do poder: presidentes e ministros, juízes e vereadores, prefeitos e toda uma vasta gama de “servidores públicos”.  Aquelas pessoas que conseguem entrar neste mundo de privilégios adquirem benefícios enormes — e é assim que, até agora, o sistema vem se mantendo.

Mas todo e qualquer sistema parasítico tem um limite.  Os explorados têm de estar em número maior que o de exploradores.  É sempre necessário que haja uma maioria de pessoas a serem exploradas por uma minoria.  Mas parece que a festa está acabando. A praça de alimentação dos parasitas está se rebelando.

Para entender o que está acontecendo no Brasil agora é preciso ter em mente que este país não sofre os males particulares dos estados modernos.  O Brasil sofre é de uma doença política muita antiga: trata-se de um estado que está sob o domínio de uma classe parasitária.  O paralelo da atual presidente como uma espécie de Maria Antonieta e seu antecessor como uma espécie de Luis XIV é válido.  Como na França daqueles dias, aqueles que estavam no poder (o que inclui o judiciário e grande parte da burocracia pública) foram alimentados por um sistema de impostos horrendos com pouco retorno para o povo.  Este sistema de tributos servia majoritariamente para financiar o esplendor, os privilégios e todo o esbanjamento da corte real (hoje em dia chamada “setor público”).

A ideologia brasileira

O brasileiro, desde criança, está exposto a um sistema de doutrinação sistemática, de propaganda de “direitos” e de “consciência social”, e foi “educado” para ver o Brasil como um país da democracia, da solidariedade, da inclusão social e da liberdade.  No entanto, a verdade é que os governantes deste país são profundamente autoritários, gananciosos, ávidos por poder e insensíveis ao sofrimento do povo.

O Brasil tem um sistema de liderança que se destaca em duas áreas: uma grandiosa retórica vazia e uma profunda incompetência prática.  Em parte, o próprio povo brasileiro tem culpa das condições em que se encontra o país, pois o que gerou esta situação foi a sua profunda incapacidade de diferenciar entre a retórica de seus representantes e a desastrosa realidade que eles produzem.  Até este surto de manifestações, o povo brasileiro sempre havia gostosamente adotado uma ilusão de promessas de glória, ignorando completamente o fato de que nada em que os seus governos tocam funciona.

O cinismo dos donos do poder é um perfeito retrato de como é o Brasil de hoje: um país com estradas cheias de buracos no qual o governo afirma que para promover a segurança do trânsito é necessário gastar enormes quantias de dinheiro com a construção de lombadas.  O Brasil de hoje é um país em que os governos gastam montanhas de dinheiro em propagandas contra a dengue enquanto vias públicas são construídas de forma que, depois de uma chuva, a água fica empoçada por dias e semanas.  O Brasil de hoje é um país em que a propaganda oficial do governo prega inclusão social, mas no qual há uma burocracia altamente bem paga que obriga qualquer cidadão, mesmo o mais pobre, a contratar um despachante para resolver o mais ínfimo trâmite oficial.

O Brasil de hoje é um país em que a propaganda oficial denuncia o “capitalismo”, a “globalização” e a “colonização” como sendo as raízes de todos os males.  O colonialismo seria a causa do atraso do Brasil, sendo que a verdade é que o Brasil ganhou sua independência já faz 191 anos. O governo usa o fantasma da “globalização” para doutrinar o povo e insinuar que quase todos os problemas do país são gerados lá fora, pelos “americanos” em particular, sendo que a verdade é que o Brasil faz parte dos países menos globalizados do mundo.  Os livros-textos nas escolas acusam “o capitalismo” por todas as desigualdades do país, sendo que um verdadeiro capitalismo praticamente inexiste no Brasil, uma vez que o país adotou variações perversas do capitalismo, como o capitalismo de estado e o capitalismo de compadres, em que governo e grandes empresas se aliam e se protegem mutuamente e mandam a fatura para o cidadão comum, que inocentemente clama por mais estado como solução para os problemas gerados pelo próprio estado.

O Brasil acordou

Estamos às vésperas de uma revolução no Brasil e tudo indica que estamos vivenciando aquele caso clássico de rebelião contra o estado por causa dos impostos escorchantes que não geram nenhum retorno e por causa de uma burocracia sufocante que asfixia a economia.  A inflação de preços foi apenas o gatilho dos protestos contra a elite política, que se destaca exclusivamente pela arrogância e pela incompetência. Estamos vivenciando uma rebelião do povo contra uma liderança que perdeu todo o resquício de bom senso (se é que já teve um).  Estamos vivenciando uma rebelião contra autoridades que se banham em privilégios como os reis e as rainhas do absolutismo, como a nobreza do passado — uma falsa elite que se destaca apenas por sua incompetência, ignorância e corrupção.  O povo brasileiro começou a acordar para o fato de que o grande obstáculo contra o desenvolvimento socioeconômico do Brasil advém majoritariamente do próprio governo, e não necessariamente do capitalismo e da globalização.

Os brasileiros parecem estar cada vez mais conscientes de que os homens e mulheres que estão no poder são fantasmas que possuem um poder meramente emprestado.  Os donos do poder têm espírito, coração e alma pervertidos, como é perfeitamente observável nas ações e nos pronunciamentos de tais governantes.  Quando o povo renunciar à obediência, o fantasma vai desaparecer.

Para ter sucesso no longo prazo, os rebeldes precisam se libertar da ideologia estatizante.  Eles precisam deixar de gritar por mais estado, porque é justamente esta a instituição que gerou todos os problemas.  Para ter sucesso no longo prazo, os manifestantes precisam encontrar a verdadeira raiz do mal, que é o próprio estado brasileiro — um estado grande demais com uma burocracia gigantesca e um aparelho de justiça ineficiente e insanamente caro.  O famoso “custo Brasil” são os custos destes “poderes”. Assim, uma agenda para o avanço do Brasil não precisa conter nada mais do que estas palavras: “Menos estado é melhor”.

Conclusão

Ainda não se sabe aonde tudo isto vai dar e nem para onde o Brasil vai.  A tentativa dos partidos políticos de usurpar a rebelião fracassou.  O governo se retirou.  A presidente ficou calada.  O governo não tem resposta. Nenhum partido dentre a multidão dos partidos políticos brasileiros tem uma resposta.  Sendo assim, será que poderíamos nos precipitar e dizer que estamos observando pela primeira vez no Brasil uma “revolução libertária”, uma revolução em que o povo não grita por mais poder do estado, mas sim por menos nas mãos do governo? Ainda não.  A velha ideologia estatizante ainda não desapareceu.  Os donos do poder ainda estão no quartel-general.  Mas o que está acontecendo no Brasil de hoje é uma tendência mundial.  Os brasileiros sinalizaram querer uma outra forma de estado, um estado no qual não há mais donos do poder que exploram o povo de uma forma ainda pior do que a nobreza do passado.  Resta agora saber canalizar esta motivação para a direção correta.

 

Antony Mueller é doutor pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, Alemanha (FAU) e, desde 2008, professor de economia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde ele atua também no Centro de Economia Aplicada. Antony Mueller é fundador do The Continental Economics Institute (CEI) e mantém em português os blogs Economia Nova e Sociologia econômica.
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